quarta-feira, 28 de agosto de 2019

A DIGNIDADE DE UMA VELHA DAMA








Adaptado de um conto de Berthold Brecht “La Vielle Dame Indigne” (França,1965) é o primeiro longa-metragem do diretor René Allio(1924-1995). Como filho de Marseille ele filma a sua terra atendendo ao que lhe pedem as emoções mostrando como uma cidade muda de aspecto na medida em que a principal personagem da história resolve mudar de vida.
Mme. Bertini (Silvye) ou Berthe, como é chamada, é uma mulher de idade avançada. Na primeira sequência do filme a câmera capta momentos angustiantes que ela está vivendo, na cabeceira do marido nos últimos momentos de vida. No processo que se traduz como os preparativos dos funerais do velho senhor, Berthe é cercada pelos filhos que desejam orientá-la. Mas ela se rebela. Prefere viver só, na casa onde morava antes. Resolve viver a vida que lhe resta de uma forma independente. E acompanhando as imagens que refletem o seu caminhar pelas ruas e lojas vê-se, não só a sua postura que evidencia surpresa pelas coisas que observa, mas, também, aos poucos, seu rosto se ilumina e ela vai aprendendo a sorrir; seguindo-se o percurso que faz pelas ruas e, por onde passa, a câmera envolve também a mudança de ambiente que está em reconstrução.
Berthe aparenta ter mais de 70 anos. É mostrada num curso de vida desde a viuvez e os seus novos relacionamentos e descobertas durante 18 meses. Há uma cena chocante para quem tem outro olhar sobre certas circunstâncias de mulheres casadas nessa faixa etária: a atitude de Berthe diante do cadáver do marido. Antes de comunicar a qualquer pessoa o triste evento, avidamente, investiga os bolsos dele, de lá tirando o dinheiro que encontra e escondendo-o sob a blusa. Daí em diante, a situação do enterro, a presença da família questionando com quem ela iria ficar, a decisão sobre a venda da casa, enfim, os filhos definindo, de forma aleatória, o curso de vida que ela deveria ter daí em diante, desconsiderando a sua opinião. Mas seu propósito será outro, afastando-se dos filhos e construindo seu grupo de sociabilidade composto de uma prostituta e o namorado desta, vendendo a casa e os móveis, passeando no shopping e fazendo o que não deve ter feito antes, quando casada: olhar a louçaria, as panelas nos shoppings e...tomar um sorvete num banco de bar.
O filme não só ganha mais luz como a direção de arte especifica as transformações físicas da cidade, as ruas e prédios que traduzem a modernidade até então desconhecida pela senhora Berthe, presa ao velho sistema patriarcal.
Bretch propunha, justamente, o encontro social aliado ao íntimo. O roteiro de Allio com Gérard Pollican apega-se aos elementos de linguagem, seja a cenografia seja a edição (Sophie Cousein) seja a iluminação (fotografia de Denis Clerval) e, sobretudo, o desempenho de Silvye (1883-1970) exibindo a postura da idosa na expressão corporal, salientando seu semblante que vai gradativamente se iluminando (chegando ao sorriso) quando acha um mundo que desconhecia embora pressentisse existir fora do lar. Isso e a canção de Jean Frerrat que acompanha a história de forma descritiva.
Allio acompanha Sylvie pelas ruas de Marseille em travellings memoráveis, ressaltando nessas tomadas as transformações que se passam no ambiente (e na personagem Bertini). O movimento de câmera não é gratuito ou excessivo. Há um apoio sistemático da necessidade de narrativa, pretendendo sempre alcançar a difícil posição de um drama introspectivo que o escritor (Bretch) traduziu em palavras (e entra aí o difícil processo de transformar em imagens o que se escreve em muitas vezes poucas linhas).
O filme emociona e, como tal, pode gerar uma licença crítica de quem o vê. Mas em constantes revisões percebe-se o ganho de René Allio na sua estreia por trás das câmeras. Foi também o seu primeiro roteiro para longa-metragem. Fez cinema até 1991.
Mas a ideia de apresentar um tema fascinante sobre mulheres idosas, formadas em um sistema patriarcal que definia a vida delas é fascinante. Principalmente nos dias atuais.
Vivamos a independência, mulheres de todas as idades! Vamos à luta por nossa liberdade!