quinta-feira, 24 de março de 2016

ANOS REBELDES DO AMOR


Tom Courtenay e Charlotte Rampling em "45 Anos"

Amor entre idosos sempre foi um tema não muito explorado tanto no cinema como em outras áreas. O assunto sobre essa faixa etária tem sido enfocado, principalmente, no âmbito da saúde, da qualidade de vida e em outras vertentes que estão surgindo porque houve um processo de politização da situação da velhice.
Em 2012, Michael Haneke, em “Amor” focalizou o drama de um casal idoso que se ama, mas cujo desfecho dado pelo cineasta, polarizou-se numa controvérsia entre espectadores, alguns que consideraram prova de amor a atitude tomada pelo marido em relação à esposa doente e em fase terminal, e outros que refletiram esse momento como de extrema crueldade.
“45 Anos” (45 Years, 2015) do diretor inglês Andrew Haigh, com base no ensaio “In Another Country”, de David Constantine,  capta um momento da história de amor de um casal de idosos, justo no período dos preparativos da comemoração desse tempo de vida de casados. Pauta em dois eixos com desdobramentos diferenciados durante uma semana: os arranjos festivos para a celebração de data tão importante, segundo Kate (Charlotte Rampling), e a descoberta, pelo marido Geoff (Tom Courtenay), através de uma carta recebida da Suíça, de que o corpo de sua ex-namorada havia disso encontrado intacto no fundo de um vale em neve.
A pontuação do filme se dá pelos dias da semana com a culminância da festa num sábado. Então, o roteiro é desenvolvido nesse recorte temporal, de forma lenta, sem movimentos ousados, mostrando a vida rotineira do casal, seus hábitos, suas emoções, sua sexualidade, tensões e momentos de solidão, caráteres bem diferentes, mas já derivados para as sínteses de vida que o passar dos anos tendeu a construir.
O processo em que é narrada a rotina do casal com esses dois dramas se desenrolando paralelamente se acha mais concentrado no que teve maior repercussão para os dois: o encontro do corpo congelado da ex-namorada de Geoff.
Em princípio, a notícia surpreende Kate. Leva em conta o tempo em que isso se deu e o desconhecimento desse fato do passado do marido. E nessa perspectiva vai somando as novas atitudes de Geoff que insistentemente comenta o fato, que busca na memória episódios de seu envolvimento afetivo e descobre no sótão as lembranças que guardara da jovem. Com isso se prepara para retornar aos Alpes para ver o corpo.
A narrativa vai revelando as transformações observadas nos dois. Se Geoff está em consonância com as descobertas e supõe-se na recomposição do afeto que sentia pela ex-namorada, criando estratégias pouco usuais para contornar a nova fase em que se acha, Kate, que aspira uma grande celebração com um planejamento já feito até da canção que irão dançar, se sente constrangida a cada investida comentada pelo marido sobre as novas notícias que recepciona. Ao ver que o marido escamoteia dela sua pretensão de viajar para os Alpes, se mostra menos atenta ao programa festivo das bodas. E busca a verdade sobre os passos dissimulados dele.
É nesse clima de desconfiança dela e de excitação dele que a festa se realiza em torno dos amigos. E nas duas últimas sequências a entonação narrativa do diretor subscreve um paralelismo entre os sintomas de uma crise construída ao longo de seis dias. As palavras do discurso de Geoff rememorando a conquista da amada Kate e o desenrolar da convivência amorosas entre eles nesses 45 anos sintoniza com o não-dito que eles viveram após a notícia do achado da ex-namorada congelada, sem conflitos, salvo a ansiedade dele em contar para Kate as novidades e rememorar o primeiro amor. Ao ouvir as juras de amor do marido naquela hora solene de celebração, observa-se, no seu rosto, um olhar vazio e distante e um riso artificial. A câmera fixa nessa imagem, ele de pé, ela sentada, com os olhos circulando pelos amigos (sem que estes sejam vistos) e as expressões faciais dizendo o que sentia naquele momento.
A sequência final é a dança do casal ao som da música de seu casamento: “Smoke Gets In Your Eyes”. A câmera segue os dois e os gestos dele abraçando-a para dançar. Mas a medida que a letra da canção vai se desfazendo nas emoções de um tempo, ressurge o agora com a ênfase de um drama. Porque a tradução, para ele – segundo o que ela viveu naquela semana - pode não representar mais o que houve entre os dois. Ao “descongelar” o corpo da ex-namorada inscreveu-se um afeto que supunha adormecido.  
No take final da câmera o gestual da aniversariante sintetiza (atente-se para este gesto) o que a canção está dizendo: “(...) Now laughing friends deride; Tears I cannot hide; So I smile and say; "When a lovely flame dies; Smoke gets in your eyes.”
“45 Anos” apresenta um excelente roteiro e direção. O desempenho dos dois intérpretes tem a aura de um brilhantismo fluente, em que a espontaneidade submete a narrativa sem que esta se torne pesada nem artificial.
Filme imperdível.



domingo, 13 de março de 2016

SPOTLIGHT- SEGREDOS REVELADOS



Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matty Carroll (Brian d'Arcy James) e Walter Robinson (Michael Keaton), elenco do filme.

O cinema tem sido pródigo em apresentar dramas focando o jornalismo como centro de atenção, a exemplo: “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), “A Primeira Página” (1974) “Todos os Homens do Presidente” (1976), “Boa Noite, Boa Sorte” (2005), “Frost/Nixon” (2008), “O Quarto Poder” (1997) “Milênio - Os Homens que amavam as Mulheres” (2011), e muitos outros em suas especificidades, além do clássico que não se pode deixar de citar, “Cidadão Kane” (1941).
A investigação jornalística traduzida nesses filmes apresenta os ciclos em que a imprensa incorporava as estratégias tecnológicas próprias da época e chegava ao público em dramas instigantes, traduzindo-se na busca da verdade sobre os fatos investigados e incorporados por Hollywood.
Em tese, o jornalismo requer independência, imparcialidade e autodeterminação além de criatividade sobre os fatos, mesmo que estes possam ferir susceptibilidades próximas. Requer reflexão sobre as coisas do mundo público e privado aplicando-se a prática da investigação sobre os bastidores da notícia com a busca de dados numa exigente averiguação.
O filme “Spotlight - Segredos Revelados” (recentemente vencedor do Oscar na categoria de melhor filme 2016) tem base em uma história real que deu origem ao livro, vencedor do Prêmio Pulitzer de Serviço Público, em 2003. Foi escrito pelos profissionais que participaram da apuração do caso. O roteiro de Joseph Singer e do também diretor Tom McCarthy tem maior aproximação narrativa com “Todos os Homens do Presidente”. Trata dos meandros de um jornalismo de rotina que é seguido pela equipe do Spotlight, caderno especializado em furos jornalísticos do “Boston Globe”, onde transitam, de forma integrada, com funções especificadas, os responsáveis pela editoria e demais focos de noticiais: Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matty Carroll (Brian d'Arcy James), chefiados pelo editor Walter Robinson (Michael Keaton).
Mas um novo editor do jornal vindo da cidade de Miami, Martin Baron (Liev Schreiber), ao ler em uma coluna que o advogado, Mitchell Garabedian (Stanley Tucci), denunciara o Arcebispo de Boston, Cardeal Law (Len Cariou), de saber que o padre John Geoghan abusava sexualmente de crianças e deixou de punir o acusado, esse editor demanda que o time Spotlight investigue o caso. Ele está preocupado com o baixo interesse dos leitores (o ano é 2001) e considera uma motivação eficaz para chamar a atenção do público impulsionar a tarefa de pesquisar o assunto avaliando as fontes e identificando o número de assédios e os acusados do crime em tempo real limitado.
O filme não se deixa levar por uma linha novelesca preferindo o tom de uma reportagem sobre reportagens, lembrando um pouco “Todos os Homens do Presidente”, de Alan Pakula.
Michael Keaton protagoniza o repórter que tivera em mãos um relatório inicial revelando fatos no passado e os omitiu. No momento em que emerge a necessidade de rever esses fatos, ele é encarregado de ressuscitar o tema e ganha reforço da equipe que com ele trabalha, evidenciando-se o colega muito bem interpretado por Mark Ruffalo. Este e a companheira de redação Sacha passam a entrevistar os operadores do Direito encarregados do caso, além das vítimas de agressão sexual (então adultos) por padres de diversas paroquias do local (Boston) com o número de casos que aflora surpreendendo a todos.
O resultado da investigação/reportagem teve como consequência, as evidências de algumas estratégias políticas da Igreja católica local, como a transferência dos padres pedófilos para outras paróquias e até uma autoridade religiosa afastada para Roma (podendo ser visto, até mesmo como promoção).
Sempre corajoso na sua objetividade, o filme é desses que saúda o melhor do jornalismo e denuncia um velho drama que, no final da projeção, sistematiza os vários casos de pedofilia ocorrentes nos anos de silêncio mostrando o número de países em que houve a ocorrência desses fatos.
A narrativa proposta no filme, observada desde o início, parte do enfoque das salas dos editores, demonstrando como se constroem, nas redações de jornais, a pauta dos fatos a se transformarem em notícias investigadas e publicadas, assegurando-se a relação entre o interesse do público e a expertise dos jornalistas. É nesse tom que se expõe a proposta de mudança do foco de uma rotina gasta para o desdobramento de um fato que se transforma no grande mote que aos poucos vai envolvendo e interessando a equipe do caderno especial do jornal. Até o tempo entre o conhecimento do fato e o período de investigação dos dados de sustentação da notícia-reportagem são considerados no filme. E é nesse percurso que o processo narrativo vai se abrindo de forma instigativa, ao interesse do espectador. Criar uma notícia em cima de dados que não emergem devido ao desinteresse proposital dos personagens envolvidos e instituições investigadas que fecham as portas para o não desvendamento se torna, então, o desafio para a equipe que trabalha integrada em busca de provas – essa também a grande sentença do caso. O outro elemento é o tempo de trabalho, os novos personagens que entram em cena e as vertentes abertas na investigação inicial que tende a levar para grandes dramas, marcantes na odisseia de uma outra figura que se evidencia como o nervo do assunto - as vítimas. Novos encaixes no método inicial aplicado e estratégias que dilacerem os cadeados tão rigidamente convertidos em legalidade, a exemplo, a descoberta, por um dos membros da equipe do Spotlight, de que um certo processo já havia se tornado público, portanto, desnecessária a exigência de um juiz sobre a licença a ser dada para que este processo fosse consultado.
O filme aponta os meandros da vida dos jornalistas, mostrando as revelações a que chegam e que afetam o seu passado e a sua emoção. Vasculha a vida das vítimas e demonstra o quanto as denúncias se tornam dimensionadas pelas situações de classe social. Desencadeia a retração da alta sociedade e de pessoas importantes da cidade de Boston. Quebram-se amizades, reinquirem-se figuras que viveram o tempo das primeiras denúncias e se fecharam por não reconhecerem mais o sentido da justiça aos transgressores. E aponta, no momento atual, quantas vítimas ainda são recolhidas e afastadas dos espaços de pedofilia da instituição denunciada (essa é uma das últimas sequencias do filme).
Com sua linearidade, envolve o uso dos recursos de formato clássico, uma trilha sonora sem ostentação revelando as múltiplas revelações do roteiro e um brilhante elenco que a cada momento vai deixando marcas de seu  desempenho sobre o tipo de estratégia que aplica embora encadeado com os outros colegas de investigação.
Esse modo de impactar gradualmente as sequencias, cria no espectador o olho mágico que acompanha os jornalistas dentro e fora da redação, quer nas caminhadas de espera nos gabinetes, na pressa no trânsito sempre tenso, mostrando de que forma um profissional consciente trabalha a sua reportagem. Não livra a responsabilidade do editor (Robinson/Keaton) que havia empacotado, anos antes, o relatório que hoje é recuperado do meio das traças do arquivo morto. Mas acima de tudo aponta para a hipocrisia de uma parte dos membros da Igreja, da burocracia jurídica e dos detentores de altos cargos sociais que tentam emparedar os fatos.
Com pouco mais de duas horas de projeção, “Spotlight” denuncia o assédio sexual de padres, mas é incisivo num detalhe: mostra o quanto pode ser imparcial e justo o profissional do jornalismo. Mesmo que a denúncia a que levam os dados encontrados o tornem receoso de enfrentar a sociedade que escamoteia a verdade.      Para ser coerente comigo mesma, percebi uma ausência: o papel do empresário dono do jornal na publicação da reportagem. Mas aí seria um outro filme. Vamos esperar.