terça-feira, 3 de dezembro de 2013

JASMINE E AS MULHERES DE ALLEN



Cate Blanchett e Sally Hawkins : mulheres dos filmes de Woody Allen.


Desde “Interiores” (Interiors, 1978) Woody Allen tem realizado filmes que focalizam a mulher. E sem contracenar com elas. Admirador de Ingmar Bergman (e de Federico Fellini) Allen viu neste seu trabalho em que focaliza 3 irmãs na expectativa do divorcio dos pais, um mosaico e que as pessoas que aparecem quase não sorriem. E todas pertencem à classe social abastada. Uma das obras mais depressivas dele. O escritor-diretor certamente inspirou-se em dramas bergmanianos como “Gritos e Sussurros” lançado meses antes. A experiência pode não ter sido um êxito de público, mas recebeu 10 prêmios internacionais e foi candidata a 5 Oscar. Viriam a seguir a Cecilia de “A Rosa Púrpura do Cairo” (The Purple Rose of Cairo, 1985) interpretada pela então esposa de Allen: Mia Farrow (e a crítica de Allen à indústria cultural). Esta é a única do grupo de mulheres retradas pelo autor que consegue encontrar momentos felizes. E no cinema, seja através de um ator de filme que sai da tela para vagar com ela pela cidade, seja pela sorte de sempre ter um filme para que vá ver e amar.
Outras personagens femininas do cineasta não têm a mesma chance de Cecilia, seja Lane (Mia Farrow) ou Stephania (Diane West) de “Setembro” (September, 1987), seja a escritora Marion (Gena Rawlands) ou Hope (outra vez Mia Farrow) de “A Outra” (The Other, 1988) ou, ainda, as personagens de “Igual a Tudo na Vida” (Anything Else, 2003) ou a Melinda (Radha Mitchell) de “Melinda, Melinda”(2004). Do grupo salva-se até por representar um papel secundário, a Nola Rice (Scarlet Johansson) de “Ponto Final” (Match Point, 2005), o melhor de Allen no gênero, até chegar a este “Blue Jasmine”(2013) ora em cartaz por aqui.
Claro que nos filmes em que ele esteve presente, como “Crimes e Pecados”(Crimes and misdemeanors, 1989) personagens femininas surgiram em plano de sofrimento (no caso, Angelica Huston assassinada pelo amante vivido por Martin Landau). Não se pode esquecer que em Meia Noite em Paris (2011) e Vicky Cristina Barcelona (2008) há crises na vida de suas personagens também. Mas a volta a um tipo como Jasmine ganha um novo formato, pois, não me pareceu “bergmaniano”. Ao contrário das irmãs que assistiam a agonia de uma delas em “Gritos e Sussurros”, ou a enfermeira que assume a identidade da sua paciente (“Persona”) aqui é uma personagem cujo drama emerge da condição social. No argumento, Allen volta à Nova York depois de uma estada europeia bem sucedida (“Meia Noite em Paris” e “Para Roma Com Amor”). E Jasmine, ou Jennifer, é uma socialite novaiorquina, que no começo do filme já perdeu o “status”, voando para São Francisco onde encontará a irmã que sempre foi pobre e por isso, esquecida. A perda foi proporcionada pela própria Jasmine, ao denunciar a corrupção do marido quando sabe que a traição dele (que ela já devia desconfiar) está em domínio público (e não fica bem manter a posição de mulher traída. Mas as fimbrias do filme deixam muito mais significados de que não é somente por esse fator, mas pelo amor que sente por ele, difícil de creditar-lhe, diga-se).
Em “Blue Jasmine” a base dramática é social que se transforma em drama psicológico. Entre morar no Brookyn ou enfrentar o kitsch da casa da irmã noutra cidade, a última opção parece melhor (até porque não a conhecem em San Francisco). Mas é difícil a ex-milionária se adaptar ao modo de vida do que seria, no máximo, um regresso ao que viveu com os pais (que se separaram). E acima de tudo, àquela altura, impossivel despojar-se da cultura da riqueza vivida por muito tempo, modos de vida internalizados que explodem a cada situação apresentada pela irmã e/ ou por um dos acompanhantes. E o filme vai confrontando as duas irmas (Sally Hawkins é a irmã Ginger e Cate Balchette a principal figura – ou a que dá título ao filme) e não mostra caminhos de redenção ou mudança que as façam sorrir. Pode-se dizer que a síntese é um close de Cate chorando. Ou falando sozinha, num banco de praça de onde os que estão ao seu redor se afastam. Além de Bergman, um Allen jogando fora a bola da sorte que seu personagm buscou em “Match Point”.

Um comentário:

  1. Luzia, fui ver o filme com uma amiga psicologa e ao sair da sessão ela comentou comigo, que o filme tem vários recortes para se estudar psicologicamente, um aquestão interessante é a das aparencias, onde nem tudo que é gentil , meigo é bom ou tudo que aparentemente é bruto necessariamente será mal.

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