terça-feira, 6 de março de 2012

O ARTISTA


O cinema é magia e também é mágica. No primeiro caso, produz efeitos e influencia comportamentos e sentimentos, muitas vezes não racionais. No segundo, cria  ilusões por meio de truques, que reportam ao ilusionismo com a percepção do fantástico.

Em “O Artista” (The Artist, 2011) têm-se esses dois momentos. Usando o arquétipo dos primórdios do cinema, quando este ainda representava em imagens sentimentos e ações de um enredo qualquer, em pequenos recortes de duração, captura a magia que estas imagens deixavam no público que ia a cata de conhecer esta arte, primordialmente vista como figurações dos prestigitadores, da “caixa mágica” que se apresentava nos salões de vaudeville, nas feiras; com o mérito criador de enfrentar as mais diversas dificuldades, por meio do gestual, da mímica, da forma de representação de sentimentos e matérias mais densas nas entrelinhas de um roteiro onde as idéias, se são simples romances, conduzem também a grandes dramas sociais e políticos. Nessa realidade, o enfático do filme do diretor francês Michel Hazanavicius é, então, mostrar de que maneira essas fases de criação são emblemáticas, para categorias que se animam e avançam na implantação do cinema como indústria: os atores que têm um quadro referencial específico onde a voz não é “elemento de troca”, mas a ausência dela se mantém no uso corriqueiro das mágicas; os diretores que entendem bem dessa métrica porque só esperam mesmo o impacto que vai emergir das platéias se a emoção ou a magia se efetivar com as mímicas e a máscara de quem representa e às quais eles tem que ser criativos a cada novo filme; os industriais que vêem o surto de um cinema mudo auferir grandes lucros porque perfeitamente acessivel a todas as classes sociais, tenham ou não bagagem intelectual. Há outro elemento, a platéia, que espera o fantasmático se apoderar visceralmente de seus sentimentos e sai da “sala escura” com vários ímpetos, entre eles e, principalmente, o reconhecimento de que entendeu perfeitamente o que as mágicas quizeram dizer.

Essa interpretação do que assisti do enredo do filme, está na teoria do cinema que a meu ver deve ser estudada, ao menos assistindo aos filmes da história do cinema. Com isso é possivel converter o que embala o enredo de “O Artista” dialogando com outros filmes, e que vão mostrando os bastidores das tensões nos estúdios, marcando a decadência de “astros” pela nova métrica do uso do som e a possivel revivência dos que se mantiveram em busca de novas oportunidades se adaptando às tecnologias que iam sendo criadas para incorporá-los no novo referencial exigido pelas platéias; além da emergência de outros atores e atrizes cujo desempenho passa a ser otimizado pela inovação (e, portanto, uma nova mágica criada) incorporada às mudanças com o nascimento de uma nova fase da indústria do gênero.

Assim, é possivel notar, na trama que o galã George Valentin (Jean Dujardin), num primeiro momento adorado pelo que representa na fase do cinema mudo, desprezando até seus próprios colegas, vai perdendo o elã dentro do estudio onde é contratado, quando não aceita se adequar à nova realidade. À semelhança de atores da época, como Rodolfo Valentino, John Gilbert, sua máscara interpretativa se mantém no exagero das feições, que para ele dariam conta dos milhões de aplausos que sempre recebeu quando surgia nas telas, em caracterizações e trejeitos faciais que supõe suprir a falta do diálogo. Por isso, empina o orgulho tentando acreditar que vai dar conta do desenlace dessa antiga mágica e o seu carisma. Mas acaba defasado, os demais que se adaptam seguem o novo formato cênico e ele perde espaço. A garota que Valentin leva para ser sua partner, Peppy Miller (Berenice Bejo) desponta na carreira tornando-se a grande estrela do cinema sonoro no estúdio que antes endeusava-o. Solidão, depressão e desespero se tornam aliados na queda, enquanto as novas tecnologias do som avançam.

Embora algumas opiniões que li revelem uma queda no filme a partir deste momento e com o “happy end” romantico entre Valentin e Peppy, considero que até este episódio se expressa como elemento dramático de uma Hollywood que vai aos poucos tomando a forma de indústria pesado circulando em vários “arraiais comerciais” com um novo produto do sistema capitalista que explora a arte.

Assim, o que “O Artista” quer mostrar, não é só a tensão entre o cinema mudo e o falado, mas a conexão de todos os demais engenhos de uma arte que até hoje ousa apresentar tecnologias de ponta para conviver com os quatro elementos já tratados acima. Filme imperível. Principalmente para os estudiosos do cinema.

Nenhum comentário:

Postar um comentário