segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O CINEMA ESSENCIAL DE EISENSTEIN & SEUS PARES

Sergei Eisenstein, o cineasta russo que mudou a técnica da montagem cinematográfica         

        Quando se começa a estudar cinema encontra-se a afirmativa de que a montagem é a parte mais importante de um filme. Montagem, como o nome indica, é colocar as coisas (no caso as cenas, ou seqüências), em seus devidos lugares. Tenha-se “devidos lugares” a posição, ou posições, que o realizador estabelece. A montagem é agora conhecida como edição. Na realidade é mesmo a edição do filme. Um momento filmado pertence muitas vezes ao final de uma história que se está contando com as imagens. Este momento é inserido na sua posição depois de realizado. Mas não é só isso, não é só a ordenação da narrativa (ou do contar história) que estabelece o papel da montagem. É principalmente o encadeamento de imagens que suscita uma resposta por parte do espectador. No filme “O Encouraçado Potemkim”, de 1925, vê-se soldados atirando no povo que se dispersa pelos degraus de uma escadaria. Os soldados descem esses degraus perfilados horizontalmente. O filme mostra o descer dessas figuras e, em frações de segundo, o povo atingido. Cada plano recebe uma espécie de resposta com outro plano, ou seja: veem-se os soldados, em seguida vê-se o povo. E as cenas são quase sempre próximas dos rostos (close). A alternância gera um sentimento de angústia. A edição explora o acompanhamento dramático por parte do espectador.
         Sergei Eisenstein, o cineasta russo foi quem melhor expressou este elemento num filme e foi um dos quem estabeleceu o papel desse recurso na linguagem cinematográfica.
         Para um contato com o cinema deste cineasta e de outros que fundaram a nova imagem para a escola soviética que se instalou no pós-revolução de 1917, está sendo exibida a MOSTRA MOSFILME 90 ANOS, no Cine Olympia.
         Os filmes dessa mostra foram realizados por parte desse grupo de diretores que se reuniu na nova escola criada pelo Comissariado de Educação que para Lênin, de todas as artes, o cinema representava a mais importante naquele momento para refletir a atualidade soviética, e os realizadores criaram filmes de propaganda ou, no meu entender, panfletos visuais, que pudessem mostrar com maior ênfase aquela realidade que começava a se desmoronar para dar outro comprometimento com as vertentes da revolução. Kuleschov (considerado o primeiro teórico a buscar uma estética da montagem e ensinou na primeira escola de cinema de Moscou) e seus pupilos Eisenstein, Parajanov, Kalotosov, Pudovikine, Alexadrov começam a trabalhar a imagem dessa realidade subvertendo a fantasia que circulava com os filmes norte-americanos e dai, organizam o novo cinema soviético. Pode-se dizer que representavam a nova forma de fazer cinema proposta por V.I.Lênin para o sistema emergente. Contratado pelos revolucionários bolchevistas, Eisenstein obteve todos os recursos necessários para evocar episódios históricos, como a Revolução de Outubro, com realismo, desde que a ótica enfatizasse o papel libertador, ou necessário, da queda do regime dos Czares.
         O artista provou ao mundo que a arte cinematográfica pode existir e é livre para despertar o interesse político e cultural de um povo, sem ficar estanque nos domínios de um só povo. Mas assistindo aos filmes percebe-se que o grupo e seus seguidores procuraram gradativamente uma maior abrangência. Na fase sonora, com “Alexandre Nevsky” e “Ivan, O Terrível”(os outros filmes foram realizados quando o cinema ainda era mudo) a narrativa documental deixou de ser limitada ao momento histórico. O enfoque foi o país em qualquer época através da ênfase patriótica do Cavaleiro Teutônico e da plasticidade extraordinária da Rússia imperial em duas épocas dedicadas a “Ivan” (seriam 3 se Stalin não achasse que o diretor estava enaltecendo a memória do antigo imperador).
         Desgostoso com as regras impostas à sua criação no então novo sistema, Eisenstein procurou filmar fora da Rússia. Aceitou fazer para Adolph Zukor (Paramount) a versão do livro de Theodor Dreiser “Uma Tragédia Americana”. O roteiro foi supervisionado pelo próprio cineasta, mas os norte-americanos interferiram a ponto de retirar o filme de suas mãos. Foi o tempo em que se iniciaram as filmagens de “Que Viva México!”, uma visão do autor de “Potemikm” sobre o país (México), especialmente o seu povo, ressaltando o espírito revolucionário que se observava em Villa e Zapata. Mas a falta de recursos abortou o projeto (depois terminado por Alexandrov, o diretor de fotografia na ocasião).
         De volta a então União Soviética e com a idéia do painel sobre Ivan, Sergei Eisenstein mais uma vez seria atropelado pelas circunstâncias. Acabou por deixar projetos inacabados. Morreu em 1948 com apenas 49 anos. E sem ser, na época, reconhecido em seu país como deveria: um gigante da arte das imagens em movimento.
         Programa imprescindível para ver e rever!


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