sábado, 25 de agosto de 2012

OS GRAUS DA VIDA EM MOVIMENTO

Anthony Hopkins um tos atores de "360" filme de Fernando Meirelles.

Em 1950, o diretor alemão radicado na França, Max Ophuls (“Carta de uma Desconhecida”, 1948 etc.), dirigiu “La Ronde” (“Conflitos de Amor”), com base em uma peça homônima (de 1857) do escritor austríaco Arthur Schnitzler. Em 97 minutos, eram contadas várias histórias sobre casos amorosos na vivência interligada de personagens do início do século. A montagem da narrativa se acerca de um carrossel, sendo movido por um narrador ou corifeu que manobrava o objeto mostrando os pares em ação, interrompendo e comentando os romances conforme sua própria escolha. Construiam-se, então, vários episódios conectados entre sí a partir das sequências desenroladas das histórias. O corifeu era o ator Anton Walbrook e o elenco all star revelava-se grandioso concorrendo Danielle Darrieux, Simone Signoret, Serge Reggiani Gérad Philipe entre tantos outros. O filme recebeu o BAFTA de melhor filme em 1952. É considerado um clássico.
Com base na mesma história, o brasileiro Fernando Meirelles dirigiu “360” (Brasil, Austria, UK, França, 2012) onde aproxima, contemporaneamente, os episódios, dividindo a narrativa em nove histórias vividas por onze pessoas comuns que em determinado momento definem suas próprias vidas, sendo captadas entre quatro países e seis linguas faladas. São histórias transversalizadas com protagonismo integrado de todos, sem fixação em um só personagem, mesmo que se tenha na conta nomes de atores como o de Jude Law, Anthony Hopkins, Rachel Weisz, os mais conhecidos, além dos brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré.

Inicia-se sem a roda gigante, mas em um episódio marcante que é a decisão de uma jovem em busca de uma profissão, no caso, usando seus pendores de beleza para chamar clientes sobre esses dotes, transformando-se em prostituta chamada Blanka, expondo-se em um site na internet, contando com um “cafetão” que extrai o dinheiro das vítimas. Nesse quadro, um tipo profissional se desloca do século XIX para os dias atuais, como se vê, e se entrelaça no cotidiano urbano e internacional. Mostram-se então: traições em perspectiva (Jude Law é o primeiro contratante da prostituta, apesar de jurar amor eterno à esposa); traições em processo (a esposa de Law, Raquel Weisz, transando com o brasileiro Cazarré, o Rui); expectativas de fidelidade (Maria Flor ou Laura, desencantada com o noivo Rui com quem viera para Londres e descobrindo que o mesmo estava traindo-a); buscas de mudanças (Hopkins a procura da filha que se indispôs com ele e há mais de 20 anos desaparecera; Maria Flor que retorna ao Brasil e se encontra, no avião, com Hopkins, e com um condenado por estupro, Tyler, que tenta se redimir); redefinição de posições sociais (o motorista russo que se cansa de ser chamado de cachorro, pelo patrão, e a irmã de Blanka que também vê, na encruzilhada entre a espera da irmã e o convite de fuga do russo, uma nova vida); e, ainda, o desencanto com o amor ( Valentina, esposa do motorista russo - mais fiel ao chefe do que a ela, ama o patrão mulçumano que a descarta por seus principios religiosos); recomeços (Valentina se apresenta no endereço do fotógrafo para uma pose sensual em vista da nova profissão a assumir, a de Blanka, que se vê rica de repente saindo de cena).
Disseram que “360” tratava sobre traições amorosas, mas, embora transversalizando alguns casos desses, o que se vê como proposta de Fernando Meirelles e seu roteirista de outros filmes, Peter Morgan , é o olhar sobre a vida cotidiana atual que se desloca de um lado a outro compondo episódios que se tornam, muitas vezes, mudanças das trajetórias dos personagens. Mas não deixam de ser ficções. Este vai-e-vem no tempo e no espaço define o nome do filme: 360 graus, ou a volta completa em torno de alguma coisa, no caso, do amor.

O diretor de fotografia Adriano Goldman, nos dá excelente exposição de imagens e o montador, Daniel Rezende, tem um trabalho exemplar na criação das sensações e circunstâncias que promovem as ações humanas. No final, o espectador conserva o resultado de situações que passaram num tempo e em vários espaços, onde sempre ocorrem: momentos de encantamento da vida. Ruins ou bons são peças de decisões das pessoas. Meirelles é um senhor diretor. Palmas pra ele.

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