quarta-feira, 26 de outubro de 2011

DECISÕES AMARGAS



Esta semana, no “pacote” de vídeos domésticos que assisti, ao menos dois merecem uma indicação para o público que procura um bom filme para ver em casa. O primeiro,“De Coração Partido”(Like Dandelion Dust/EUA,2009), cujo tema é tenso e emocionante por mais que se procure achar que a intensidade sentimental prejudique algum senso critico. Na verdade, quem dita esse senso é o acúmulo cultural que temos aprendido em termos de sentimento ma-paterno.

O enredo trata de um menino, Joey (Maxwell Pery Cotton) que vive bem como único filho de um casal de classe média-alta, Jack e Molly Campbell (Cole Hauser e Kate Levering) e que, de repente, é guinado à casa dos pais biológicos que desconhecia: o ex-presidiário e alcoólatra Rip Porter(Barry Pepper) e sua esposa Wendy (Mira Sorvino) que sofre violência doméstica, denuncia o marido causando-lhe a prisão. Mas com ele convive após o tempo de liberdade. Nesse momento, ao saber da gravidez e maternidade da esposa que deu a criança para adoção, Rip, ao perceber que não havia assinado nenhum documento para esse fim, vai à justiça e consegue a posse da criança por demonstrar que um guarda forjou a assinatura dele quando estava preso.

O drama ambienta-se em duas frentes: a da família que adotou Joey e o trata com muito carinho e a do violento Rip que tenta se redimir na aceitação do filho, mas logo revela seu temperamento quando retorna à violência contra a esposa e o filho.

A disputa dos pais (adotivos e biológicos) caminha em paralelo com rotinas que sequenciam para sérios conflitos. A narrativa estruturada pelo diretor Jon Gun trabalha um roteiro muito bem escrito, sem medo de ser objetivo, da trinca Stephen Rivelle e Michael Lachance, com base num romance de Karen Kingsbury.

Nada é supérfluo como nada é aprofundado. O que interessa são os fatos e eles colocam em cheque o preceito legal (neste caso com uma análise parcimoniosa do comportamento de quem deveria ficar com a criança) assim como apresenta um comportamento desesperado dos adotantes o que de certa forma exterioriza o amor pelo filho que criam desde recém-nascido (o menino já tem 5 anos).

A hegemonia artesanal não deixa que se guarde uma sequência especifica, mas o filme tem momentos de grande intensidade dramática, como a hora em que Rip briga com o menino para levá-lo ao chuveiro (colocando-o vestido e aos prantos).

Para render o que rende, o trabalho do diretor contou com um elenco afiado. Especialmente com os desempenhos muito convincentes de Mira Sorvino e Barry Pepper.

Mas é preciso estar atento à narrativa que se estrutura para mostrar a forma de inclinação aos tipos que vão ser apresentados. A primeira sequência é a da violência doméstica contra a mulher e a prisão do marido. Ai já se qualificou um “bad men”que ao sair da prisão diz estar regenerado. A segunda sequência é de outra forma, contrária à primeira: o carinho do pai adotivo ao filho e o tratamento familiar num plano traquilo e de luxo. Nesses dois momentos o filme já criou as expectativas de quem é quem no drama e então o espectador/a já definiu quem deve ficar com a criança. Esse elemento do cinema é importante reconhecer para mostrar a ideologia de um filme na construção narrativa.

Um dos bons DVDs que vi últimente. Produção “out Hollywood” que não alcançou os nossos cinemas. Felizmente chegou às locadoras. Vale a pena conhecer.

Também merece uma sessão doméstica o contundente “Fora da Lei”(Hors la Loi/França, Argélia, 2010) de Rachid Bouchareb. Apenas a indicação e sobre ele comentarei na próxima semana. Quem não conhece a história das lutas da Argélia por sua independência da França esse é um bom momento para ter acesso a um dos fatos mais sangrentos da História. Tem comparativo com “Deuses e Homens”(Des Hommes et des Dieux/França,2010) ora em exibição em Belém (Cine Estação de hoje a 6ª Feira).

DVDS MAIS LOCADOS( FOXVIDEO)

1. Os Agentes do Destino

2. Transformers - O Lado Oculto da Lua

3. Os Pinguins do Papai

4. X-Men: Primeira Classe

5. Thor

6. Uma Manhã Gloriosa

7. Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas

8. Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio

9. Um Novo Despertar

10. Qualquer Gato Vira-Lata

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

AMIGOS ÍNTIMOS



Os “takes” atuais que versam sobre sexo casual e amor estão na ordem do dia, pelo menos no cinema. É o que se deduz das recentes produções da lavra de Hollywood. Mesclam o gênero comédia e o selfcore com as evidências de um discurso que trata sobre a liberdade sexual e o desempenho do par, por suposto, “ficante” e faturam, com isso, um lucro fácil. A base é essa e o acúmulo da discussão sobre o tema é zero.

Nessa vertente está “Amizade Colorida”(Friends with Benefits/EUA,2011), considerada uma comédia romântica. O enredo, vindo de um roteiro do diretor Will Gluck, de parceria com Keith Meryman e David A. Newman, lembra muito o recente “Sexo sem Compromisso” (No String Attached/EUA,2011) escrito por Elizabeth Menwether e Michael Samonek de uma história da primeira. O núcleo da trama é a mesma: um casal jovem que pensa manter-se unido apenas por relações sexuais regulares não consegue alijar desses encontros um liame de afeto mais denso. Lembrando a peça de Alfred DeMusset “não se brinca com o amor”, o jogo de bons amigos desejado, em principio, faz a recrutadora de talentos Jamie (Mila Kunis) se envolver com o rapaz de San Franisco que tenta emprego em Nova York, Dylan (Justin Timberlake), mas a amizade na cama não consegue manter uma exclusividade. Ela o ajuda na apresentação ao novo cargo e, recebendo-o em seu quarto acaba registrando uma afeição onde cabe o ciúme e, nesse ponto, envereda relacionamento familiar (com a mãe dela e os pais dele) afirmando um compromisso.

Não se pode negar que o diretor Will Gluck consegue explorar uma certa química entre os principais intérpretes. Mas exagera nas cenas de sexo. Assim como Natalie Portman e Ashton Kutcher iam aos limites do “selfcore”(a imitação da relação sexual no citado filme de Ivan Reitman), Mila Kunis e Justin Timberlake tiram e vestem roupas nesta comédia com uma continuidade que chega a ser entediante, desprezando o teor cômico proposto na produção (pelo menos o filme é vendido como comédia). De minha parte não achei nenhum humor nas peripécias dos “ficantes” diante das inúmeras gags sob os lençóes. Mesmo o enredo não dá chance para o espectador exibir gargalhadas, mas, pelo que se observa dos blogs que tratam do filme os comentários são favoráveis ao estilo da comédia. O que salta na história é o drama de um jovem inexperiente, “filhinho de papai”, que tenta se firmar na metrópole usando a nova amizade com uma expert em caça-talentos, como um meio de conseguir o seu objetivo.

No filme há um único plano interessante: quando o casal está em Los Angeles debruçado sobre o letreiro Hollywood, marco da cidade do cinema. Ali é proibido o tipo de aproximação e um helicóptero aparece para chamar a atenção dos dois (ela ameaçando se atirar por trás das letras, morro abaixo). Seria uma síntese da ficção que deseja assumir um patamar de realidade (no caso, o romance que nasceu entre os que seriam apenas amigos). Fora isso, tudo é lugar comum no gênero. Não há nada a destacar, nem mesmo outras características dos lugares em relação aos tipos. E o espectador desse tipo de filme sabe de antemão como as coisas vão se encaminhar e concluir. É disso que vivem os produtores copiando as versões de enredos que “deram certo” na comercialização mundial e, portanto, dão lucro para as empresas.

A comédia romântica tem sido um veio de bilheteria igual ou melhor do que os filmes épicos adaptados ou não de histórias em quadrinho. E a guerra do box-office ganha mais um parceiro que é o filme dito infantil. Geralmente editado em 3D custa ingresso mais caro e os pais instigados pelos filhos compram esses ingressos para ver o que nem sempre vale a pena. E agora há ainda o replay de franquias. Refilmou-se “A Hora do Espanto” (já em cartaz) e se observa que muitos outros filmes de sucesso no passado ganham edições que tentam “explicá-los” abordando suas origens. Escassez de imaginação. Ou a mania de apostar no já visto que foi bem sucedido nas bilheterias. Creio que as duas coisas. O problema é que o espectador que deixa a sala de vídeo pela do cinema agora de shoping é mais o de faixa etária jovem e adolescente. E isso é sério. A arte que o cinema firmou como a Sétima deixa-se esvair pela pobreza intelectual e, mesmo de uma diversão inventiva, cumprindo um papel tão devastador nessa platéia que poderia estar melhor aprendendo com ela.


SUSPENSE FRANCÊS



Os críticos franceses elogiaram o cineasta Fred Cavayé como um novo Hitchcock. Depois de “Tudo com Ela” (Pour Elle/2008) que o americano refilmou com o nome de “72 Horas”(The Next Three Days/2010) esse diretor surge com este “À Queima Roupa” (À Bout Portant/2010), lançado por aqui em DVD, onde centraliza a ação num enfermeiro que socorre um bandido ferido e, por isso, é perseguido por adversários deste a ponto de seqüestrarem a esposa do enfermeiro, em final de gestação(e após de receber conselho médico para repousar.

Todo o roteiro prende-se à luta deste cidadão comum em tentar salvar a esposa sabendo que o perigo é maior a partir da fragilidade de saúde que ela enfrenta. É um corre-corre contra o tempo em que o personagem é forçado a agir com violência em determinados momentos e por isso passa a ser perseguido também pela policia (e há um policial corrupto na trama que embaralha os fatos).

Cavayé sabe manejar a fórmula que estimula o espectador a ficar sempre atento. A sequencia inicial molda o cenário com a amostragem do que possa gerar perigo – trama entre bandidos e política, mulher do enfermeiro em consulta médica. Em seguida, ele acelera a narrativa com seqüências curtas , muitos planos próximos, edição “metralhadora”(que o norte-americano chama de “machine gun cut”). Para conseguir o efeito desejado é necessário, claro, que o elenco se porte convenientemente. O ator Gille Lelouche deixa a máscara do homem aflito. A atriz Elena Anaya explora a impressão da gestante em perigo. E os coadjuvantes introjetam o perfil enquadrado em estereótipos. Aliás, o desejo do diretor é fazer suspense. E como o próprio Hitchcock definiu o gênero em “Pacto Sinistro”(Stranger on a Train/1951) explicando o tiroteio num carrossel cheio de crianças (“o cinema pode se valer de situações aparentemente absurdas para melhor se expressar), vale tudo para manter o clima tenso que o espectador pode saber que dificilmente renderá uma tragédia mas, mesmo assim, sente-se cúmplice dos acontecimentos.

“À Queima Roupa” foi titulo de outros filmes como o “Point Blank” de John Boorman com Lee Marvin (e este filme francês também ganhou no mercado norte-americano o título de “Point Blank”, ou seja, o mesmo “À Queima Roupa”). Mas nada é semelhante. O que era guerra de gansgters aqui é, principalmente, guerra de um individuo contra tudo e todos para salvar uma pessoa querida.

O filme não chegou aos nossos cinemas como não chegou “Tudo por Ela”. Não fosse o DVD e a “periferia” ficaria sem conhecer Fred Cavayé realmente um nome a gravar.

Outro filme em DVD que assisti esta semana foi “O Dragao do Gelo”(Wyven/Canadá 2009). Trata-se de um exemplar da linha B que lembra muitos “filmes de monstro” realizados por Hollywood nos anos 1950. Desta vez a figura central é um dragão pré-historico que emerge de um rio e assola uma pequena cidade do Canadá. O monstro tem predileção por carne humana e não falta o “mocinho” que vai enfrentá-lo. Um glossário de clicheria só diferindo dos modelos antigos pelo uso de efeitos digitais que produzem um dragão tridimensional interessante.

O filme dirigido por Steven Monroe de um roteiro de Jason Bourque foi produzido para a TV. Ganha DVD no Brasil com honras de lançamento de cinema.

DVDS MAIS LOCADOS (FOXVIDEO)

  1. X-Men: Primeira Classe
  2. Thor
  3. Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas
  4. Uma Manhã Gloriosa
  5. Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio
  6. Namorados para Sempre
  7. Um Novo Despertar
  8. Qualquer Gato Vira-Lata
  9. A Ocasião Faz o Ladrão
  10. A Garota da Capa Vermelha

PARAISO PERDIDO



O cineasta norte-americano Terrence Malick tem 67 anos e está no cinema desde 1969, embora no âmbito da realização só tenha criado 8 filmes como diretor (contando-se um curta-metragem e dois projetos a estrear) e 12 como roteirista (também contando os inéditos). É o novo “enfant-terrible” do cinema americano. Perfeccionista, leva meses filmando e assim mesmo depois de outro longo tempo na concepção do roteiro e direção de arte. Interferindo em quase todos os quesitos de suas produções, trabalha até a música (como também monitora os diretores de fotografia). Esse modo de fazer cinema lembra outro excêntrico: Stanley Kubrick. Coincidentemente os sobrenomes rimam.

Depois de “A Árvore da Vida”, melhor filme do ano para a critica mundial (e deve repetir a posição por aqui), a sua obra está sendo revista até por parecer inédita para muitos cinéfilos que assumiram o amor pelo cinema nos últimos anos. É assim que “Cinzas do Paraiso” ou “Dias do Paraíso”(Days of Heaven/1978), seu segundo longa metragem, está programado para a Sessão Cult da ACCPA neste sábado no cine Libero Luxardo.

O filme narra a odisséia de um jovem aventureiro (Richard Gere em seu 4° desempenho ) que busca trabalho na área rural dos EUA nos anos 1930, levando consigo a esposa (Brooke Adams) que diz ser sua irmã. Quando arranja uma vaga numa fazenda onde o proprietário (Sam Shepard) está diagnosticado como doente incurável, a companheira passa a ser a paixão deste personagem que não demora em pedi-la em casamento. Mas não demora e o homem descobre a máscara do “irmão” da namorada. E os ciúmes levam à uma tragédia.

Caracteriza, o cinema de Malick, um cuidado todo especial para com a imagem. A fotografia do espanhol Nestor Almendros consegue verdadeiros quadros de cenas da colheita ou simples visão panorâmica do campo. A direção de arte, a cargo de Jack Fist dá a dimensão temporal, os tempo e espaço que John Steinbeck descreveu em “As Vinhas da Ira”(1940) e ganhou o cinema num dos melhores filmes de John Ford.

Amargo na sua perspectiva de reformular a vida dos tipos focalizados, “Dias do Paraíso” segue o que o anterior “Terra de Ninguém”(Badlands/ 1973 ) mostrou: a zona rural onde os personagens encontram um destino cruel no momento em que desistem de melhorar sua qualidade de vida.

No final da sessão deste sábado, haverá um debate que tratará da obra de Malick. E certamente entrarão no enfoque outros trabalhos desse diretor, ainda mais pelo fato de “A Árvore da Vida” estar programado para o mesmo Cine Libero Luxardo no próximo mês.

Este programa extra se junta a “Deuses e Homens” e “Contra o Tempo” no que vale a pena assistir no citcuito exibidor extra nesses dias. Os dois filmes citados já foram alvos de comentários aqui na coluna. A minha “dieta” cinematográfica passa, depois deles, ao DVD. E eu cito como um dos mais atrativos que assisti ultimamente “De Coração Partido” (Like Dandelion Dust), produção independente dirigida por John Gunn , adaptado de um best-seller de Karen Kingsbury . Será comentado na próxima 2ª feira. Por ora fica a recomendação do filme de Terrence Malick. Com um adendo para a curiosa mudança de titulo em português: nas telas grandes intitulou-se de “Cinzas do Paraíso”. No DVD seguiu-se o original e ficou “Dias do Paraíso”. Raro momento em que apelou para o bom senso.

HOMENS DE DEUS


Com a saída dos franceses do território argelino, após a independência desse país em 1962, a República Argeliana Democrática e Popular viveu, posteriormente, uma verdadeira guerra que durou 8 anos. Consequentemente, os cristãos no território ficaram reduzidos a 1% da população, dos quais, 0,5% eram estrangeiros. Foi aprovado o Decreto 06-03 que restringiu os cultos não-islâmicos e os poucos cristãos que permaneceram no local passaram a ser perseguidos. Apesar de a legislação local tentar evitar medidas extremas contra as minorias religiosas, muitos incidentes contra sacerdotes católicos foram registrados e até dezembro de 2009, algumas igrejas foram incendiadas e seus pastores ameaçados ou assassinados. O caso da comunidade de monges trapistas situada numa provincia argelina, Thibirine, no Magreb, em 1996, onde os guerrilheiros muçulmanos obrigaram a saída dos 9 monges, tornando-os reféns contra o governo que havia detido extremistas, ganhou um texto de Etienne Comar que ele próprio produziu para o cinema escrevendo o roteiro junto com o diretor Xavier Beauvois. Esta é a genese do filme “Deuses e Homens”(Des Hommes et des Dieux/França,2010) ora em exibição em Belém (Cine Estação de hoje a 6ª Feira).

O filme é narrado de forma pausada, numa dimensão solene, alternando as sequências dos monges circulando em seu ambiente de trabalho quer nas feiras onde comercializvam os produtos que cultivavam no horto particular, quer no ambulatório onde o único médico, o monge Luc (Michael Lonsdale), atendia a população da vila. O filme registra esse cotidiano de atividades dos religiosos para o sustento do grupo, além de mostrá-los nas práticas litúrgicas na capela do mosteiro fazendo as suas orações. Não há música incidental. Ouve-se o ruido ambiente, os cânticos do grupo sem orquestração, e até mesmo as falas são bem econômicas. O silêncio agregado à rotina monástica só é quebrado pela ameaça dos guerrilheiros que a cada dia parecem dominar o ambiente. Ao socorrer um desses guerrilheiros os monges supoem-se salvos dos notórios inimigos. Mas esse líder não vive muito e logo as hordes que o substituem acham que esses adeptos do cristianismo podem servir de reféns para que o governo argelino liberte muitos prisioneiros de sua comuna.

Um elenco sem estrelas (exceto o citado Londsale e Lambert Wilson que protagoniza o líder dos religiosos cristãos, Christian) comporta-se admirávelmente sob a direção coesa de Beauvois. E se há uma hegemonia formal no projeto, mesmo assim salta uma sequência que por sua intensidade dramática se filia as mais expressivas do cinema moderno: em tempo de Natal, quando é iminente a invasão do monastério, a câmera capta os religiosos ao redor de uma mesa onde é servida a ceia e, sempre em close, faz um travelling de ponta a ponta desta mesa. Ouve-se a bela composição musical de Tchaikovski, “O Lago dos Cines”. Cada rosto exprime o drama desses heróicos resistentes apoiados na fé que sabem ser muito dificil escapar com vida da sanha assassina dos rebeldes muçulmanos. É um momento de reflexão na tela e de emoção na plateia. Este é um detalhe que já coloca “Deuses e Homens”(se não tivesse outros valores) entre os melhores filmes exibidos em Belém este ano.

Esse trabalho do cineasta francês foi vencedor de prêmios diversos onde se incluem dois em Cannes: o do juri e o ecumênico. Foi também um sério candidato ao Oscar deste ano, ganho por “Um Mundo Melhor”. A mim só merece restrição o final estendido. Espera-se que o encerramento se dê um plano antes quando são focalizadas as cruzes em referência à sepultura dos padres assassinado, cobertas de neve. Mas ainda há uma tomada que os mostra avançando na caminhada. Sem acrescentar algum detalhe de interesse.

Um filme excelente a ser visto no Cine Estação.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

REALMENTE SEM SAÍDA










O ator novato Taylor Lautner protagoniza a figura do lobisomem da série “Crepúsculo”(Twilight). O seu colega Robert Pattinson (que se investe de vampiro, na mesma série) foi promovido a “estrela” pelo fato de ser uma estampa adorada pelas garotas que pagam ingresso em cinema e já leram os livros de Stephanie Powers (de “Crepúsculo”em diante). Se Pattinson está provando que pode fazer carreira em arte dramática, como em “Lembranças”(2010) e “Água Para Elefante” (2011), Lautner vai mal nesta variante de título “Sem Saída” (Abduction”, EUA, 2011). Nesse filme ele protagoniza Nathan, um jovem que descobre pela internet que é um dos meninos desaparecidos que deixaram de ser procurados pela policia. Vivendo com um casal que pensa ser seus pais biológicos ele arranca da mãe adotiva a informação de que, de fato, não é filho dela, e passa a investigar quem são seus verdadeiros progenitores e como foi levado à adoção.
Numa seqüência anterior à descoberta da foto que o identifica como um “outro”, Nathan, de ressaca depois de uma noite de farra com colegas, enfrenta o pai que o instiga ao aprendizado de pugilismo. A atitude estimula a ira do jovem, mas interessa perceber a capacidade do filho em não só se defender de um adversário como saber atacar e ardilosamente vencer. O espectador que desconhece a trama fica impressionado com a violência de quem pensa ser o pai do personagem.
Ao iniciar a busca pela identidade do jovem, o filme entra na clicheria do gênero espionagem, com a tônica de um “thriller”. Constroem-se os tipos-padrão da base afetiva, como a namorada que vivencia diversas armadilhas perpetradas por um vilão russo (apesar do fim da guerra fria ainda cabe esse tipo de malvado). Nesse tom, surgem os “furos” no roteiro, como no momento em que a casa da família de Nathan explode, ele e a garota se jogam na piscina, saem correndo para um hospital  e todos estão com as roupas perfeitamente enxutas. Da mesma forma, os tipos marginais invadem a casa de saúde com uma facilidade impressionante. E os agentes do governo, já que se trata de um caso de espionagem, também invadem espaços potencialmente privados sem qualquer trâmite burocrático. O casal foge de duas fontes: o russo e sua gangue e os agentes chefiados por um delegado corrupto (Alfred Molina). Como se não bastasse há um “coluna do meio”: o pai biológico do jovem definindo meios para o escape do filho, mesmo com um rastreamento eletrônico que desafia a tecnologia moderna (neste caso não se trata de pura ficção, mas de arranjo para que se acesse dados em tempo hábil). Vestuário, amor, medo e lutas desafiam o tempo diegético (aliás, a cena do beijo foi forçada pela produção para vender a participação de um dos ídolos juvenis de “Crepúsculo”). Há estratégias de mraketing para “vender” o “produto” ator, como a exploração de seu físico atlético colocado num jeito para que as fãs da franquia milionária estabeleçam as sintonias com o tipo e recomendem o filme às colegas.
Não há nenhuma coerência na trama do filme, escrita por Shawn Cristensen. Tanto que o bom diretor John Singleton(de “Os Donos da Rua”) não consegue eximir-se de responsabilidades pelos “furos”. Lugar comum, também, a terapia do rapaz quando conta à psicologa (Sigourney Weaver) um sonho em que vê um atentado e se esconde debaixo da cama. Ele é uma criança e a pessoa atacada é uma mulher, supostamente a sua mãe. Ao relato, a psicóloga não se mostra muito interessada embora se saiba, mais tarde, que também é agente do governo. Para completar, o “happy end” não fica no plano em que os maus são castigados. O filme deixa espaço para a sequencia em que o jovem casal troca carícias sentado em poltronas de um estádio. Ao que é possivel observar, a platéia gostou da brincadeira. Há humor para se ver o filme até o fim. 

INVESTIGANDO NO TEMPO




O segundo filme de longa metragem do jovem diretor inglês Duncan Jones (filho do cantor e ator David Bowe) “Contra o Tempo”(Source Code/EUA,2011), apresenta um tema interessante já usado em outros filmes. O primeiro trabalho desse diretor, “Lunar” (Moon, UK, 2009), foi uma ficção-cientifica inteligente, mostrando como astronautas na lua podem sofrer de claustrofobia – e de depressão por conta da solidão ambiente.
Neste novo trabalho, vindo de um roteiro de Ben Ripley (outro amante do gênero sci-fi) o diretor focaliza um capitão da aeronáutica norte-americana que foi muito ferido em combate e passa a ser cobaia de um experimento militar que visa caçar terroristas antes que estes ataquem alvos percebidos pela inteligência do governo. Para isso, esse oficial, Steve (Jake Gyllenhaal), é transportado no tempo para um trem que se sabe vai explodir por conta da ação de um sabotador. O rapaz só descobre que é outra pessoa, dentro do trem, quando vai ao banheiro e se olha no espelho. Daí em diante ele passa a ser uma das vitimas da explosão. Só que na hora da “morte” volta ao laboratório. Uma das técnicas do projeto (Vera Farmiga) força-o a regressar ao momento do incidente. E nessas viagens temporais (são mais duas), ele encontra e se apaixona por uma jovem passageira (Michelle Monagham). No fim da história há uma opção poética: Steve pode ter realmente morrido ou pode ter ficado numa fração de tempo e espaço com a sua eleita.
O filme é sempre instigante. A direção imprime um dinamismo que vai da economia de planos aos cortes bruscos. Há, por exemplo, uma repetição de enquadramentos em seqüências de ida e vinda ao trem em movimento. A repetição passa de um “déja vu” e gradativamente vai mudando quando o viajante temporal investiga a ação e descobre a bomba que irá detonar. Daí a descoberta do terrorista é outro passo. E estes são mostrados de forma gradativa, enfatizado que a investigação se faz devagar, procurando sempre driblar os minutos que têm para achar o vilão na certeza de que vai haver um desastre e a missão é evitar que isto aconteça.
Jake Gyllenhaal é um dos atores mais solicitados do novo cinema de Hollywood. Sua carreira foi impulsionada em “O Segredo de Brokback Mountain”(ele  protagoniza um dos caubóis) embora já demonstrasse talento em “Donnie Darko”(EUA, 2001) visto aqui só em DVD, e “ Céu de Outubro”(também só visto em Belém nas telinhas). Hoje já conta com títulos importantes em sua atuação como “Zodíaco”, “Entre Irmãos”, e concessões comerciais como “Amor e Outras Drogas”. A atriz Michelle Monagham apresentou-se como coadjuvante de muitos filmes como “Terra Fria” e “Um Parto de Viagem”. Ganha o principal papel nesse thriller inventivo de Duncan Jones. Este, por sinal, aguarda oportunidade para outro trabalho. Como não está preso a contratos com os estúdios norte-americanos, espera a chance de realizar outra obra inventiva, lembrando o escritor Phillip K.Dick no modo como vê a ficção cientifica.
É de admirar um suspense em que se sabe o que vai acontecer e, mesmo assim, crie muito interesse na trama. E o argumento não deixa de ser curioso, saindo da mesmice que hoje polui histórias cabíveis na antiga série de TV “Além da Imaginação”. Por esses atributos “Contra o Tempo” é a melhor estréia das salas comerciais na semana. Confira. 

PREMONIÇÃO 5




No primeiro filme da série “Premonição”(Final Destination), realizado em 2000 por James Wong, alguns jovens que deveriam viajar de avião desistem na hora da decolagem porque umdeles percebe que vai haver um desastre e todos morrerão se prosseguirem na viagem. O desastre acontece realmente e os que escaparam graças à premonição começam a morrer devido a acidentes tolos. É como se a morte “cobrasse” a falta de seus “clientes”.


O assunto foi tematizado em série, em mais 3 filmes. Supunha-se um término com o fracasso do número 4. Mas a Hollywood de hoje vive de reciclagens. Os donos dos estúdios estão convictos de que sempre é melhor investir em projetos que um dia faturaram bem no mercado do que empregar dinheiro em outros duvidosos.


“Premonição 5”(Final Destination 5/EUA,2011) troca o avião do primeiro filme da série por uma ponte em reforma. O jovem que vai passar pela ponte fere um dedo no veiculo que o transporta e acha, “num estalo”, que o melhor é sair dali, alertando os companheiros de viagem. A queda da ponte dá margem aos efeitos digitais mais interessantes ao processo 3D. Aliás, os créditos do filme sobre vidro estilhaçado, com pedaços caindo em direção à platéia, já é um trunfo para a projeção tridimensional. No feitio de parque de diversões é claro.


A novidade do roteiro de Eric Heisserer com base nas personagens de Jeffrey Redick é que, em dado momento, uma jovem escapa de morrer (era uma das candidatas a sucumbir na queda da ponte) ficando a fatalidade para uma colega. Com isso, o mentalista da premonição considera que se a pessoa marcada pela morte arranjar um substituto pode sair do quadro fatalista. Parece dar certo com outro membro da turma. Mas logo a morte cobra  o engano. E o filme fecha como o primeiro da série começa.


A direção de Steven Quayle, assistente de James Cameron em “Avatar”, é a de um técnico em efeitos especiais. Seu modo de ver cinema prende-se ao visual que o diretor de “Titanic” usou desde a sua participação na franquia “Alien”. O filme de agora, portanto, é uma brincadeira sem pretensões artísticas. Um programa como passear num dos brinquedos de arraial de Nazaré ou em feira de diversões. Com uma desvantagem: as mortes focalizadas primam pelo mau gosto, pelo bizarro, a título de assustar o/a espectador/a. Um dos eventos mórbidos, por exemplo, é a de um cliente de oftalmologista que é vitima de um curto-circuito na sala onde está sendo examinado, com as pálpebras presas a ganchos, que se desespera e se atira da janela do prédio que ocupa. Quando o corpo cai no cimento o olho salta para adiante, mais próximo da câmera ( na 3D é como se fosse cair na platéia).


No caso de Promonição 5, o cinema responsável se esconde. Mas é sempre bom conferir. A opinião que sempre emitimos em nossos espaços é de quem já maturou muitas dessas “mensagens” de súbitas ocorrências que o cinema de Hollywood teima (porque se inclui no seu processo de circular a mercadoria) em manter. É isso.

REGISTRO

Este espaço registra a“passagem” de Rubens Onetti, falecido na semana passada. Ele foi um pioneirodo curta-metragem em 16mm aqui em  Belém.Realizou trabalhos para a iniciante TV Marajoara e, também, fez filmes paraparticulares e empresas. Foi contemporâneo de Milton Mendonça e Fernando Melo(vale dizer de Libero Luxardo na sua fase amazônica). Como cinegrafista de TVatuava com película, muito antes das câmeras digitais. E era um excelentefotografo. Um nome na história da cinematografia paraense que não deve seresquecido pelos futuros pesquisadores do tema. Acho que a ACCPA deveriarecuperar esse material (com os familiares dele) e fazer uma homenagem a quemmuito conheceu o cinema na Amazônia, dos registros de festas às imagensdocumentais de nossa terra. Minhas condolências aos seus familiares.

TEMPO DE DESPERTAR














 O titulo do filme de Jodie Foster serve para alertar o quanto de produções interessantes, mesmo de Hollywood, passam ao largo de nossas telas grandes. Felizmente o DVD está trazendo cópias desses filmes e atualizando o conhecimento do cinéfilo local. Hoje a coluna focaliza 3 desses filmes inéditos nos cinemas locais e que podem ser encontrados na Fox Vídeo


Em filmes como “Cabeça de Pau”(Knock on Wood) o personagem se refugia dos problemas existenciais através de recursos como falar com bonecos. Nesta comédia é o comediante Danny Kaye quem usa do artifício. Em “Um Novo Despertar”(The Beaver/EUA,2011) é Mel Gibson, protaginizando um executivo envolto na atual crise econômica que abala os EUA e que só ganha alento na depressão em que se envolve quando acha em um castor de pelúcia o meio de se expressar. Ele fala pelo castor. E a sua parceira (Jodie Foster) tenta, a principio, dissuadi-lo, mas depois compreende que é um meio de ele superar sua enfermidade. O mais difícil é controlar o filho, um adolescente estudante que não consegue aceitar o “pai boneco”.


Jodie Foster dirige o filme que chegou a ser exibido no sudeste, mas passou longe daqui. O roteiro é de Kyle Killen e, apesar de escorregar no apelo sentimental, é qualquer coisa de diferente na programação monótona que se observa nos cinemas atualmente. Curioso é que Gibson, recentemente metido em problemas como dirigir embriagado, andava por baixo e, ao ganhar apoio da colega Jodie fez um de seus melhores trabalhos como ator. Ele é um dos fortes motivos para assistir  o filme.


“Caminho da Liberdade”(The Way Back/EUA, UK 2010) é de Peter Weir, o diretor australiano de “O Show de Truman”, “A Testemunha” e “Sociedade dos Poetas Mortos’. Mesmo assim, com o admirável currículo do diretor e o elenco com nomes conhecidos como Colin Farrel, Ed Harris e Jim Sturgess, o filme não chegou aos nossos cinemas. Trata da fuga (real) de prisioneiros de um “gulag”, prisão  russa na Siberia, seguindo-os na caminhada por neve e deserto até chegar ao Nepal e em seguida à India. O roteiro se baseou no livro “The Long Walk ,The True Story of a Trek to Freedom” de Slavomir Rawicz. Uma narrativa acadêmica com certo desnível rítmico que torna o resultado cansativo, mas um filme sempre interessante quando se imagina que o que se vê, apesar da carga de ficção para tornar um programa de fácil acesso às grandes platéias, carrega uma força dramática intrínseca.


Um filme político que também não passou nos cinemas locais e chegou em DVD é “Super Lobista” (Casino Jack/EUA,2010) de George Hinckenlooper, com Kevin Spacek como o personagem do titulo, um negociador de barganhas para cargos de legislativo norte-americano que se envolve em falcatruas sendo alvo de investigações,
apontando algumas de suas estratégias para faturar prestigio a seus alvos e a si próprio. 


O roteiro é conciso e muitas vezes confuso, mas a direção consegue dar um clima e Spacek está em um de seus melhores momentos. É interessante para ser assistido por uma platéia que se interesse pelas articulações políticas de bastidores de assessores lobistas, no caso, na câmara alta dos EUA, e avaliar de que forma os bastidores desse políticos negociam a mediação com empresários e até com representantes populares sempre em função de alcançar prestígio e manter uma certa evidência visando a reeleição aos cargos parlamentares.

DVDS MAIS LOCADOS (FOXVIDEO)
1.     Thor
2.     Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas
3.     Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio
4.     Arthur - O Milionário Irresistível
5.     Um Novo Despertar
6.     Água para Elefantes
7.     Qualquer Gato Vira-Lata
8.     A Ocasião Faz o Ladrão
9.     A Garota da Capa Vermelha
10.                       Pânico 4

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

DOIS FALAM DE UM: EDWALDO MARTINS



DIDI , PARA OS ÍNTIMOS

Luzia Álvares


A Família Miranda (Abaetetuba e Igarapé Miri) tinha o dia 3 de outubro como uma data importante: aniversário da matriarca Gertrudes de Miranda Maciel (ou Mocinha) que ainda sob o peso da adolescência, teve que cuidar dos oito irmãos órfãos de pai e mãe falecidos numa distância bem curta – entre seis meses um do outro. Essa data se manteve também como marco das eleições, porque os meus familiares tinham sempre nas veias uma forte tendência para a luta política ou de divulgação dos seus candidatos. A pé, pelas ruas da cidade, ou de canoas a remo, pelos rios do interior, minha mãe ou meu pai nos incluiam nas suas “caminhadas” distribuindo cédulas eleitorais dos seus escolhidos, em busca de votos, culminando na data-símbolo festejada nas próprias cantigas criadas para o dia. Outra menção é para o navio que nos trazia até Belém, o “3 de Outubro”, um “gaiola” de luxo que circulava através da linha do Tocantins, incluindo Abaetetuba onde aportava também.

A mudança de ambiente, da cidade pequena para a “grande” e de status civil, de solteira para casada, me fez inserir, no calendário de efemérides, outro marco para a data: o aniversário do Edwaldo Martins, jornalista que foi se incluindo no nosso meio de amigos de cinema e permaneceu entre os “mais chegados” (como referia) até sua “passagem” para outro plano de vida. Já conhecido do Pedro Veriano ainda solteiro, frequentava o “Cine Bandeirante”, mas, desse tempo não guardo lembrança. No avanço das mudanças, entre as sessões de cinema e os banhos de piscina com o mesmo grupo, a cada dia ele marcava a sua presença nas feijoadas e churrascos dominicais. E para ficar. Era também o tempo do barzinho onde nos reuniamos (o Corujão, o Garrafão, a Tonga, a Pop’s) para curtir um final de sábado, após uma sessão de cinema, ou os festejos coletivos de um aniversário (cada qual pagava o seu e o do aniversariante), ao tradicional dia de Natal quando ele se transformava porque eleito na ocasião em secretário efetivo da então APCC para anotar o lugar geral dos filmes que cada sócio-eleitor relacionava nas suas listas. Sua presença era significativa e importante nessa função. Mas esse procedimento não era uma simples anotação do Didi: era acompanhada de uma frase chistosa quando o tal filme escolhido por um de nós era, para ele, “muito cerebral” ou se caia no desinteresse pelo tal diretor que ele achava sem pendores para a arte ou fora de seu gosto. Esse era o momento-chave de nossos encontros que hoje não temos mais, pois, o Didi era especial nas suas frases mordazes sobre as escolhas e seus eleitores. O que mais ele impinimava era na contagem dos valores, se era para os dez títulos ou dez lugares.

Da “Vila de Satanaz” (a casa dele na Braz de Aguiar), à "Cova dos Monstros" (a garagem de casa, onde ficava o “Bandeirante”) ou no "Castelo do Pavor” (a casa da Lana Gomes da Silva), a turma (mais chegada) da APPC, àquela época em que se reunia, vivia de graça os encantos do Didi. De suas viagens ao exterior, ao chegar, ele fazia a roda para contar as novidades e os lugares “de cinema” que tinha visitado. Sua emoção: curtiu um fim de tarde na Piazza de São Marcos, em Veneza, com uma orquestra tocando “Summertime”, a exemplo do filme de David Lean que ele amava. Falava da “Mariazinha” (Marilyn Monroe) de quem tinha um poster gigante à porta de seu apartamento. Distribuia cartazes de filmes de Chaplin e de outros, àquela altura, muito difíceis de encontrar no Brasil. Foi ele quem me deu a noticia da morte do ator-diretor-autor, com a voz embargada e sabendo que Chaplin era um dos meus mais queridos.

Um grande débito devo ao Didi: ele avalizou, junto a Rômulo Maiorana, a minha escolha para escrever sobre cinema, em “O Liberal”, no final de outubro de 1972, coluna batizada por RM como “Panorama”. Ele foi comigo na visita ao “italiano” e fez minha apresentação. Esse foi o meu primeiro emprego público. Desafio para mim e para o que eu sabia. Mas isso não invalidou, anos depois, sua insistência comigo para que o PV, a quem ele tinha uma especial admiração pelo estilo de crítica que este escrevia, assumisse a coluna após o fechamento de “A Província...”. Isso nunca foi em desrespeito pelo meu saber (dizia ele, “tu já tens a UFPA...”), mas pelo que ele considerava como um lugar cativo do seu amigo, no espaço da crítica de cinema em Belém.

Hoje, 3 de outubro, Pedro e eu resolvemos fazer-lhe uma homenagem, registrando seu “leva-e-traz” sobre cinema no tempo de sua presença entre nós, ele que hoje está “encantado”, no dizer de Drumond. Beijo grande, Didi.


DIDI

Pedro Veriano

Na minha adolescência 3 de outubro era o dia de eleição e o nome de um “gaiola”, que fazia a linha do Tocantins (e por onde eu pretendia encontrar a namorada Luzia, acabando por me contentar com um teco-teco). Mas não demorei a acrescentar outra característica: era o aniversário do Edwaldo Martins, um garoto que montava uma página sobre cinema no jornal “A Província do Pará” competindo com a sua colega Regina Pesce que fazia no outro jornal da cidade,”Folha do Norte”.

Edwaldo, mais tarde ganhando de minha família o diminutivo carinhoso de Didi, apareceu no meu Cine Bandeirante, a garagem que exibia filmes em 16mm, numa noite em que passava o neo-realista “Um Domingo de Verão”, filme italiano de Luciano Emmer. Lembro que nesse tempo havia uma tumultuada greve de ônibus e alguns veículos tinham sido incendiados pelos grevistas. Mesmo assim, o novo espectador viu a sessão e saiu corajosamente a pé no rumo de sua casa noutra rua.

Anos mais tarde eu era o critico de cinema de “A Província...” e tomava parte na Associação Paraense de Críticos Cinematográficos, nome pomposo criado por um grupo de amigos. Nos finais de ano o Didi era convocado não só para a escolha dos 10 melhores filmes do ano como para secretariar a sessão que acabava sendo uma festa natalina.

Por muito tempo Edwaldo contava os pontos dos filmes, resmungando, fazendo piadas do que se achava extraordinário e ele, muito prático, concluiu que aqueles títulos cabeça “não balançavam o passarinho”.

E não ficou por aí. Didi respondia presente em reuniões familiares, até em um réveillon com direito a banho de piscina, nesse ano trocando uma de suas reuniões sociais já que na época havia assumido a coluna especifica do jornal (e mais tarde de outro jornal, “O Liberal”).

Este amigo de muitas horas morreu cedo, desprezando os perigos de sua diabetes. Não preciso escrever que deixou uma cratera na lua de tantos. A última vez que o vi foi em seu apartamento, já com seqüelas da enfermidade. O cinema e o colunismo social abraçavam-se nas ironias do jornalista de vocação. Conseguiu concretizar sonhos como visitar a Piazza de São Marcos em Veneza e pedir para a orquestra de lá tocar “Summertime” como no filme de David Lean que ele adorava. E visitou mais de duas vezes os EUA indo à calçada da fama, vendo as marcas dos artistas que desde criança admirava, chegando a receber a “visita” de um furacão para lhe lembrar filme de John Ford.

Coerente sempre, seu filme predileto era “Mompti” com Romy Schneider e Alain Delon. Na primeira escolha dos críticos em grupo votou em “Rocco e seus irmãos” de Visconti. Dizia sempre que se devia votar, no fim de ano, em filmes exibidos nas salas comerciais e não nos cineclubes. Gostava de ver estrelas, ora...

Em cada 3 de outubro a lembrança de Edwaldo Martins fica mais forte. Não que ele se cultuasse. Era muito simples. Mas os amigos somavam muitos e não deixavam de prestigiar o seu natalício.

Neste calendário de saudade cito o Didi no espaço que me cabe. Ele manteve uma secção chamada “A Cara de Belém”. Botou muita gente mas esqueceu a dele, um bragantino que amava a capital do Pará.