sábado, 8 de janeiro de 2011

72 HORAS




Refilmagem, assim como seqüência, é recurso comercial usado especialmente pelos estúdios norte-americanos para obter um faturamento mais seguro. Hollywood é pródiga em refazer histórias como a de “O Chamado” ou, mais atrás no tempo, de “Sublime Obsessão”. Agora mesmo surge o “remake” de “Bravura Indômita” (True Grit), western que premiou com o Oscar o veterano ator já falecido John Wayne (um dos últimos trabalhos dele). Nesta linha se insere “72 Horas” (The Next Three Days/EUA, 2010), refilmagem de “Tudo Por Ela” (Tout Pour Elle/França, 2008) de Fred Cavaye, assunto extraído de uma idéia de Guillaume Lemans.

O argumento é extremamente fantasioso: um professor universitário dedica-se inteiramente a libertar sua esposa, presa por ter supostamente assassinado sua chefa, na garagem da repartição onde trabalhava. As provas contra a acusada são muitas e no julgamento ela é condenada á prisão perpetua. Mas o marido não desiste em libertá-la sabendo-a inocente. Quando falham os mecanismos legais ele apela para preparar uma estratégia de fuga da prisão, recebendo instruções de um escritor (Liam Neeson) que escapara três vezes de uma cadeia semelhante.

Na versão francesa, a trama envolvia os percalços naturais do ambiente. O casal rumava para um país distante depois de ludibriar a policia. Na versão norte-americana que está nas telas mundiais, soma-se o medo do terrorismo. Marido, mulher e o filho de aproximadamente 6 anos, enfrentam a séria vigilância de estradas e aeroportos Mas a tudo a esperteza e a dedicação tendem a superar as dificuldades da medida tomada pelo marido num final quase impossível de referenciar um “bad end”em filme norte-americano.

O diretor canadense Paul Haggis notabilizou-se com “Crash-no Limite” (2004), vencedor do Oscar em 2005. Mas em seu currículo sobressaem roteiros fascinantes, especialmente os de “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”, filmados por Clint Eastwood, e o mais recente James Bond:”Quantum of Solace”. Haggis elaborou também a adaptação da versão francesa do filme já referido “Tudo por Ela”(2008) e contou com Russel Crowe, que conseguiu imprimir veracidade num desempenho muito bom, mas em uma sequencia de ações praticamente inverossímeis.

A narrativa é ágil e se o filme mantém uma duração maior na tela (122min.) do que o de Fred Cavaye é porque as situações imaginadas são maiores, deixando suspense ao espectador que passa a torcer para que os eventos planejados pelo professor dêem certo e este consiga livrar a sua amada da cadeia. Ainda mais quando ela se mostra relutante na fuga, em um dado momento querendo se atirar do carro que a leva para fora da cidade.

Obviamente “72 Horas” só foi produzido porque “Tudo por Ela” não apresentou uma boa divulgação no circuito doméstico norte-americano (aqui chegando apenas em DVD).

Um fator primordial nas refilmagens é a equação comercial que acompanha uma produção (rentabilidade eficiente), embora existam outras variáveis, como o tempo em que este dista de novas gerações. Melodramas do famoso diretor de filmes românticos, Douglas Sirk, por exemplo, só foram avalizadas pelo produtor Ross Hunter porque os originais datavam dos anos 1930 (“Sublime Obsessão” e “Imitação da Vida”). O maior trabalho, quando se trata de uma matriz estrangeira, é adaptar a trama para a cultura norte-americana. Isto nem sempre é possível. É o caso de “Dark Water”(2005), por exemplo, que foi mal na adaptação que o brasileiro Walter Salles dirigiu nos EUA. Interessante que até diretores dos filmes originais falham quando realizam versões de Hollywood. Há todo um aparato de produção que monitora qualquer derivada criativa considerada menos comercial. No caso deste “72 Horas”, Haggis aceitou uma edição que alimente a angústia das personagens. O interessante da historia é que o filme não terá uma continuação. Não figurou entre os “blockbusters” de fim de ano. Seria constrangedor voltar a ver a família fugitiva ao alcance dos seus algozes.


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