segunda-feira, 16 de julho de 2012

UM TRATAMENTO PERIGOSO

Viggo Mortensen e Michael Fassbender protagonistas no filme de Cronenberg

Quem conhece o diretor canadense David Cronemberg de filmes como “Scanners” (1981), “A Mosca”(1986) e ”Gêmeos, Mórbida Semelhança”(1988) supõeterem mudado o título, no crédito de “Um Método Perigoso”(A Dangerous Method/Canadá 2009 ) ora em cartaz no Cine Estação.
Baseado numa peça intitulada “The Talking Cure” escrita por Christopher Hampton (que assina o roteiro), por sua vez derivada do livro ”A Most Dangerous Method” , de John Kerr, o tema do filme é a controvérsia entre os dois “monstros sagrados” da psicanálise: Sigmund Freud e Carl Jung (representados respectivamente por Viggo Mortensen e Michael Fassbender). E o resultado na tela é diferente do que o cineasta já realizou devido à sua rendição integral ao texto original. O filme é excessivamente dialogado. Mas quem o defende aponta a exigência de um tema como a psicanálise, ou a “terapia pela fala” necessária a qualquer outro recurso. Entretanto, é possivel considerar que Alfred Hitchcock abordou o assunto com o seu “Quando Fala o Coração”(Spellbound, 1945) onde ele achou um meio de tratar o discurso psicanalítico com a intromissão de imagens, no caso, concebidas por Salvador Dali, o coautor do surrealista “Um Chien Andalouz” de Buñuel e de “L’Âge D’Or”.

Há muita controvérsia na historia de que Jung teria tido relações sexuais com uma cliente, a russa Sabina Spielrein, mais tarde colega médica. E que este relacionamento tenha ajudado na ruptura com os ensinamentos de seu professor e amigo Freud. No texto de Hampton, o teor analítico passa para uma história de amor nem sempre compreendida. Naturalmente que uma obra cinematográfica não sucumbe a uma liberdade ficcional. “Um Método Perigoso” é ficção, e chega a ser irônico o titulo quando se lança a uma prévia critica da obra afirmando que é perigoso tratar de um caso de doença mental indo ao âmago da terapia, praticamente alertando que o médico pode sucumbir aos encantos de uma paciente que não mede a sua capacidade afetiva. Não é bem o caso de Jung com Sabina. Em principio, segundo o filme, ele seguiria os ensinamentos de Freud e via no quadro de esquizofrenia da paciente que lhe deram um acento sexual como causa, Sabine contava que ao ser açoitada pelo pai, aos 4 anos de idade, sentiu prazer a revelar uma atuação masoquista que seguiria seu comportamento adulto no prisma erótico. Jung teria iniciado um relacionamento com ela para testar a implicação freudiana de que todo problema mental tem raiz no sexo. Mas o roteiro (não sei se também o original literário) abre espaço para que o médico evoque outros prismas, e a controvérsia com seu mestre caiba na acepção mística que Jung não deixa de considerar. Um diálogo entre os dois psicanalistas é básico. Freud diz; ”- Não podemos sair da ciência e endossar uperstições”. Por ai os dois deixaram de afinar suas ideias.
O filme de Cronemberg usa uma fotogenia admirável para compor o espaço histórico (a Áustria do inicio do século XX) e mostra bom rendimento de atores, especialmente de Keira Knightley, Michael Fassbender (recentemente o robô de “Prometheus”), ele premiado pelos críticos de Los Angeles. Há também uma aparição de Vincent Cassel, personagem importante na trama. E se o estilo narrativo é academicamente comportado pode-se considerar que o que interessou foi o tema na história, ou o enfoque originário sobre um ramo médico. O comportamento adúltero de Jung está disposto na linha dramática a ponto de não se esmiuçar o relacionamento dele, posterior ao “caso Sabine”. Legendas no encerramento dão conta de como os personagens se comportaram além do que o filme mostrou. Responsabilidade com os fatos que pretende justificar todo o processo de produção. Um filme, afinal, interessante, sobretudo, a estudiosos do tema. Merece ser visto e discutido sem se condenar a liberdade que se deu aos fatos.

BORGNINE
Aos 95 anos morreu o ator Ernst Borgnine, vencedor do Oscar pelo neo-realista “Marty”(1955). Com 203 filmes no currículo, marcou, com a sua presença, momentos que ficaram na lembrança dos espectadores como “O Destino do Poseidon”, ”Os 12 Condenados”, ”Meu Ódio Será Tua Herança”, ou”O Vôo do Fênix”. Trabalhou até ano passado, em “The Man Who Shook the Hand of Vicente Fernandez” a ser lançado este ano. Dizia sempre que não se deve deixar de trabalhar como forma de vencer a velhice. Um ícone do cinema.

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