sexta-feira, 17 de outubro de 2014

LUNCH BOX

Saajan (Irrfan Khan) começa um novo modo de viver a partir das "quentinhas"

Em Dubai (Índia) há um serviço de entrega de alimento caseiro, conhecido por Mumbai Dabbawallahs. O filme “The Lunch Box” (Dabba, India, França, Alemanha, 2013) dirigido por Ritesh Batra, trata desse tipo de serviço quando certo dia, a entrega de uma das caixas vai para outro cliente e nesse erro aproxima uma dona de casa de um homem viuvo que está se aposentando. Mensagens trocadas entre eles revigoram um mundo de fantasias. O filme usa uma linguagem simples mostrando como se formam as aproximações entre as pessoas solitárias.
Não há uma tradução para o título original do filme a partir da cópia norte americana, mas este foi visto como um exemplar diferente da média de produção de Bollywood, a indústria cinematográfica indiana, uma das mais produtivas do mundo. As evidências do contexto da cidade indiana ficam das imagens das ruas e de um pouco da cultura local, especialmente na culinária. Mas o tema é amplo, e três enfoques pontuam a historia: a figura do homem de meia idade, que está preste a se aposentar, um tipo que é apresentado para ele pelo patrão, para que lhe seja repassado as tarefas que este vai deixar de executar, e uma jovem casada que faz o cardápio servido nas marmitas e que passa a se corresponder com o homem maduro a partir de bilhetes trocados dentro das marmitas. O primeiro, viuvo, evidencia a solidão em todos os âmbitos – o percurso que faz do trabalho para casa e a forma de tratar o candidato à sua vaga, sem trocar palavras com este dá idéia desua depressão. Da falta de sua esposa em casa ao momento de sair do emprego, deixando o lugar para o outro, sente-se que Saajan sofre em silêncio, mas se renova com os bilhetes trocados. O segundo é um jovem que tem um passado sofrido, com passagem pelas forças armadas e tentando um emprego sem conhecimento do que vai fazer. O tipo é Shaik (Nauwazuddin Siddiqui) noivo de uma jovem de família com recursos e por isso mesmo desprezado pelos pais da noiva, sempre assediando Saajan para que este lhe ensine o modo de trabalhar com os papeis da empresa. A terceira, a jovem lla (Nimrat Kaur), submetida à tia que a ajuda nas comidas caseira, sofre a rotina da casa e das tarefas e se reencontra consigo e com o novo afeto a partir dos bilhetes.

lla (Nimrat Kaur), a nova estrela na vida de Saajan

Através dos personagens sofridos chega-se ao modo de vida do indiano nos dias atuais. A câmera não se furta em focalizar as ruas, os transportes, algumas casas, o modo de vida de pessoas de duas classes sociais. Chega a vislumbrar uma festa de casamento típica, justamente o clímax da historia de Shaik. Pode-se dizer que não há muita profundidade na exploração íntima dos personagens embora não se veja, no viúvo, um estereotipo do solitário abordado pelo cinema de Hollywood. E mesmo assim houve quem achasse “Lunch Box” um filme mais hollywoodiano do que indiano (ou bolywoodiano). Pessolmente tenho pouco conhecimento dos filmes de Bollywood e como eu, possivelmente, a maioria do publico brasileiro. Os de Satyajit Ray não contam. São obras densas exibidas em festivais e não possuem detalhes da fórmula industrial do país, como música, canto e comédia. Já assisti a “Seu Crime, seu Sofrimento” (Makkhi/1991) de SS Rajamouli. Não vi muita diferença, pelo menos formal, com fantasias de outros centros produtores. O que observei foi um bom humor submetendo uma situação dramática que não é rotina. Trata de um empresário que se apaixona por uma jovem que ama outro. E o ciúme faz com que ele mate o rival que reencarna numa mosca e passa a atentá-lo.

“Lunch Box” ganhou 22 prêmios internacionais inclusive em Cannes e no Brasil (Festivais de São Paulo e Amazonas). Mesmo assim, só conseguiu por aqui exibições restritas, como no caso do Cine Estação, programado pelo critico de cinema José Augusto Pacheco. Para quem quer assistir algo diferente e de uma fonte rara é um bom programa. É interessante, aliás, observar que graças ao chamado “circuito extra” estamos conseguindo assistir filmes de diversos países como Japão, França, Paraguai, Alemanha, e agora Índia. Desde o tempo do Cine Clube APCC (1977-1986) não se via isso.

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