sexta-feira, 10 de outubro de 2014

PARA AS CRIANÇAS, EM SEU DIA

Em "Frozen": as irmãs que se completam. E viva o "dia das crianças"!

O que as crianças querem do cinema? Antes elas começavam a assistir filmes só em tela grande e com um mínimo de 5 anos de idade. Com a chegada da TV, o encontro foi bem mais cedo. E na era digital é praticamente um fenômeno de imediato pós-berço.
Mas o que se dá à criança em imagens e sons? Através do vídeo, a oferta é não só farta como variada. Melhor dizendo: quase não há seleção para os bem pequenos. Até a animação, que passou do desenho quadro-a-quadro para os computadores, ganhou forma adulta, com heróis e vilões menos estereotipados. Sim, pois não é possível dizer que antigamente se projetavam tipos que traduziam bons exemplos de conduta. Que dizer da madrasta de Branca de Neve que incumbia um servidor de matar a enteada e, por bondade, este a fazia percorrer um bosque onde as arvores pareciam querer agarrá-la? Ingmar Bergman, o grande cineasta sueco, escreveu em suas memórias que teve medo, em criança, ao ver o desenho dos estúdios de Walt Disney (Bruno Bettelheim escreveu um livro sobre isso: “A Psicanálise dos Contos de Fadas”). Hoje é possível que as crianças se divirtam com a situação. Cedo são acostumadas a monstros e situações de pretenso horror chegando a se inverter os papéis e o bandido passar a ser o mocinho (“Meu Malvado Favorito” é um exemplo).
Ligadas desde os primeiros anos ao mundo digital, as crianças do século XXI (neste caso, incluo meu bisneto Lucas que adora a “Galinha Pintadinha” e já tecla cpus de brinquedo) não só manejam computadores como se deleitam com os videogames. E a indústria cinematográfica sabe que se trabalhar com personagens e situações desses games estará aumentando seus lucros. Neles e nos quadrinhos modernos, que estão longe da ingenuidade dos gibis quando um Mandrake fazia mágicas, um Fantasma desbravava a selva, um Brick Bradford e um Flash Gordon viajavam no espaço sideral e no tempo, está a base do entretenimento.
Objetivando o público infantil produz-se, atualmente, uma série de animações e de espetáculos de aventuras. Os chamados blockbusters (arrasa quarteirão) são ligados aos games e às ficções cientificas geradas para a TV e/ou para o que hoje são chamados de “graphic novel”(quadrinhos editados em álbuns e não apenas em revistas). Os antigos seriados de aventuras que chamavam os infantes em sessões de cinema complementadas com ingênuos faroestes, foram transformados em programas televisivos ou modulados em jogos onde o leitor não é mais um espectador passivo mas um participante dos embates entre antagonistas.
Felizmente está surgindo uma renovação das velhas histórias que avós e babás contavam aos pequeninos. Já se está desprezando a representação do “príncipe encantado”. No recente “Malévola” é a bruxa que produz o adormecimento da bela que se transforma na maior amiga dela e que revela como verdadeiro vilão, o pai da jovem. No mesmo filme, o beijo que vai reanimar a mocinha sonolenta é dado pela própria personagem que amaldiçoa a garota e não por um príncipe que aparece na história como perfeito coadjuvante. Idem em “Frozen”, onde quem vence as lutas são irmãs valentes, e um nobre que adentra seu castelo é um forasteiro inútil. Nesses filmes, como em “Valente”, quem é bom de briga e por quem o público vai vibrar é a mulher. Antes ela era uma figura passiva que se projetava por mágica de “fada madrinha” e que se realizava casando com um nobre “boa pinta”. Agora ela é uma figura de lutas que não recua diante do perigo. Por isso mesmo, os novos filmes são amados também pelas meninas que antes eram tratadas como consumidoras de histórias de diversas fontes (Grimm, Perrault, Andersen) e eram ensinadas para ser “boas esposas”. `
No dia dedicado às crianças não se pode mais, como no século passado, pedir que elas consumam os velhos clichês de contos & filmes. Elas escolhem. E os orientadores passam pela nova tecnologia que está sendo criada da televisão e pelo computador.

Ave crianças, em seu dia. Curtam e vivam este novo modelo de democracia cultural! Que se já vem de um mercado invasivo, dá a opção da escolha. 

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